ITAÉRCIO ROCHA

 

Itaércio Rocha trouxe a Oficina de Estandartes para o Encontro de Tradições.  Eles foram confeccionados para o Cortejo Final.

Itaércio nasceu na ilha de Pedras, no Maranhão. O apelido, “ita”, significa pedra em tupi-guarani. E foi com uma pedra – na bexiga – que ele descobriu sua vocação: o carnaval. Da varanda do hospital onde foi internado, aos dez anos, Itaércio assistiu de camarote a uma exibição do Tambor de crioula, dança praticada por descendentes de escravos nas festas populares maranhenses. “Prometi a mim mesmo que, se eu saísse de lá, brincaria carnaval para sempre”, conta, com os olhos marejados.

A pedra foi retirada da bexiga e a promessa, cumprida à risca: Itaércio tornou-se músico, bonequeiro, carnavalesco de mão cheia.

Depois de participar de folias em Olinda, São Luís e Rio de Janeiro, o multi-artista veio parar em Curitiba nos anos 90 para morar com o companheiro Odílio Malheiros. Logo que chegou, ouviu dizer que a festa era “fraquinha” por estas bandas: “O que faltava era a preparação, o pré-carnaval”, lembra. “A festa nunca acontece, assim, da noite para o dia”.

Aquela constatação foi a semente do bloco Garibaldis e Sacis, criado por Itaércio e um grupo de amigos em 1998. O bloco tornou-se o mais popular da cidade, e chegou a reunir 90 mil foliões no Largo da Ordem. Este ano, descentralizou a festa para outras regiões de Curitiba e da região metropolitana.

Resistência

Itaércio Rocha afirma que a Prefeitura nunca investiu um real para que o bloco fosse às ruas. Segundo ele, mesmo sem investimento direto, a gestão do prefeito Gustavo Fruet (PDT), de 2013 a 2016, “com todas as limitações”, foi a que mais reconheceu a importância do bloco. Porém, as chances de diálogo diminuíram com a eleição de Rafael Greca (PMN): “Eu preciso que o poder público ofereça, no mínimo, segurança para eu brincar”.

Dia 22 Festival Oficina Estandarte013Daniel Castellano.jpg
Dia 21 Festival Oficina de estandarte038Daniel Castellano.jpg

“Artista elástico”, como gosta de ser chamado, Itaércio garante que houve grandes carnavais antes de sua chegada a Curitiba. Ele menciona algumas fotografias do início do século XX em que aparecem “milhares de pessoas brincando na rua”, mas sugere que há poucos registros daquela época – e não é por acaso.

“A tradição da elite curitibana sempre foi a de tentar matar o carnaval”, lamenta.

Essa resistência, segundo ele, tem caráter higienista. “Em que outro momento a população dos bairros e do Centro se junta para brincar junto, suar junto?”. O artista defende que o carnaval sempre é subversivo, porque mistura cores que aparentemente não combinam: “Tem uma certa Curitiba que se acha mais europeia que o Nordeste, mas não sabe que a própria Europa foi beber nas formas e cores da África. Sem essa mistura, não existiria Picasso, nem Van Gogh, nem carnaval”. Nem Itaércio.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

Fonte: Brasil de Fato